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Por que iniciar a terapia de crianças durante as férias?

  • Foto do escritor: Carolina Bittencourt
    Carolina Bittencourt
  • 19 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Muitos pais e mães pensam que a terapia de crianças durante as férias devem ser interrompidas. Mas eu gostaria de te propor uma reflexão a esse respeito.


É comum que pais associem as férias a um período de descanso absoluto, no qual qualquer compromisso estruturado, inclusive a psicoterapia, pareceria inadequado ou excessivo. No entanto, do ponto de vista do desenvolvimento emocional infantil, as férias não representam uma pausa do funcionamento psíquico, mas uma mudança significativa de ritmo, de contornos e de organização relacional.



Na clínica com crianças pequenas, a terapia de crianças durante as férias é bem proveitosa e produtiva, justamente porque as transformações na rotina tornam mais visíveis aspectos importantes do funcionamento emocional da criança.


A função organizadora da rotina na primeira infância

Na infância pequena, a autorregulação ainda está em processo de construção. A criança depende intensamente de organizadores externos como horários, previsibilidade, repetição de experiências, para sustentar seu equilíbrio emocional.


Durante o ano letivo, a escola exerce uma função estruturante fundamental: oferece ritmo, continuidade e referências estáveis. Muitas manifestações de sofrimento psíquico não desaparecem nesse período, mas são temporariamente organizadas por essa estrutura.

Quando as férias chegam, essa sustentação externa se modifica. O tempo se alonga, os horários se flexibilizam, as referências mudam. Para algumas crianças, essa transição acontece de forma fluida. Para outras, o corpo e o comportamento passam a expressar aquilo que vinha sendo sustentado com esforço.




Quando o sofrimento aparece no corpo e no comportamento


Crianças pequenas ainda não dispõem de recursos simbólicos suficientes para nomear seus conflitos internos. Por isso, suas experiências emocionais se manifestam principalmente por meio do corpo, do brincar e da relação.


Nas férias, é comum que pais observem:

  • alterações no sono

  • aumento de irritabilidade

  • regressões em aquisições já consolidadas

  • birras mais intensas

  • maior dependência ou dificuldade de separação


Esses sinais não indicam, necessariamente, um agravamento do quadro emocional. Muitas vezes, representam a possibilidade de expressão em um contexto com menos exigências adaptativas.



Por que iniciar a terapia nesse período pode ser clinicamente potente


Do ponto de vista terapêutico, as férias oferecem condições particularmente favoráveis para o início do trabalho clínico com crianças pequenas.

A redução do cansaço físico e da sobrecarga de estímulos favorece a disponibilidade emocional da criança. As sessões tendem a acontecer com mais tempo psíquico para o brincar, elemento central da comunicação infantil. Além disso, o vínculo terapêutico pode ser construído de maneira mais gradual, sem a pressão imediata de múltiplas demandas externas.


Iniciar a terapia nesse momento não significa retirar a criança do tempo de descanso, mas integrar o cuidado emocional ao seu modo natural de expressão, respeitando seu ritmo e seu estágio de desenvolvimento.


Inclusive, quando a criança está menos pressionada por horários rígidos e exigências de desempenho, o brincar tende a emergir com maior espontaneidade. Clinicamente, isso amplia as possibilidades de contato, de observação e de intervenção, permitindo que o processo terapêutico se desenvolva de maneira mais consistente e ajustada.




Cuidar cedo não é antecipar problemas

Ainda persiste a ideia de que a psicoterapia infantil deve ser acionada apenas diante de sinais graves ou persistentes. No entanto, na clínica com crianças pequenas, o cuidado precoce tem uma função essencialmente preventiva e organizadora.

Iniciar a terapia durante as férias pode oferecer à criança um espaço de sustentação emocional em um momento de transição, favorecendo um retorno ao próximo ciclo com mais recursos internos e maior capacidade de adaptação.

Cuidar cedo não significa patologizar a infância, mas reconhecer que o desenvolvimento emocional acontece em relação e pode ser apoiado desde os primeiros anos de vida.


As férias não interrompem o desenvolvimento emocional da criança, elas o transformam. Justamente por isso, podem se tornar um momento fértil para iniciar um acompanhamento terapêutico cuidadoso, respeitoso e sintonizado com as necessidades da infância pequena.

Mais do que perguntar se a criança “precisa” de terapia nas férias, talvez a questão seja: como estamos oferecendo sustentação emocional enquanto ela cresce?



 
 
 

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Psicóloga Carolina Bittencourt | CRP 05/64826 | Atendimento presencial na Barra da Tijuca e online em todo o Brasil

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