Expressar não é só desabafar: quando a emoção encontra um adulto pra ouvir, algo muda
- Carolina Bittencourt

- há 5 dias
- 3 min de leitura
Existe uma ideia bastante difundida quando falamos de emoções na infância: a de que a criança precisa “colocar tudo para fora”. Gritar, chorar, bater, descarregar. Como se a simples expressão emocional fosse, por si só, suficiente para produzir alívio e transformação.
Na clínica infantil, essa crença merece ser olhada com mais cuidado. Nem toda expressão organiza. Nem toda descarga transforma.
Quando expressar vira apenas repetição
A criança expressa o que sente desde muito cedo. O corpo fala antes das palavras, e a ação costuma ser a primeira linguagem disponível. Choro, birra, agressividade, retraimento... tudo isso são formas legítimas de expressão emocional.
O problema surge quando essa expressão acontece sem contato, sem reconhecimento e sem sustentação relacional. Nesses casos, a emoção não se integra. Ela apenas se repete.
A criança grita hoje, grita amanhã e continuará gritando. Não porque não foi ouvida, mas porque ainda não encontrou um campo que a ajude a se organizar com o que sente.

Alívio não é o mesmo que transformação
Descarregar pode aliviar a tensão momentaneamente. Mas alívio não é sinônimo de desenvolvimento emocional.
Quando a emoção é descarregada sem apoio, ela não encontra contorno. Não vira experiência. Não produz sentido. O corpo se movimenta, a intensidade diminui por alguns instantes, mas nada novo se constrói internamente.
Na psicoterapia infantil, o objetivo não é apenas permitir que a emoção apareça, mas sustentar para que ela possa ser vivida com consciência e limite.
A importância da relação para organizar emoções
A emoção só se transforma quando encontra um outro presente. Um outro que não se assusta. Que não invade. Que não corrige apressadamente.
É na relação que a criança aprende que pode sentir sem se perder. Que pode entrar em contato com emoções intensas e, ainda assim, permanecer em vínculo. Que aquilo que emerge pode ser acolhido, nomeado e atravessado.
A relação terapêutica funciona como um campo de sustentação onde a emoção ganha forma, ritmo e significado. Sem esse campo, a expressão fica solta. Com ele, a experiência se organiza.

Expressar com apoio é diferente de perder o controle
Na clínica infantil, expressar não significa “deixar acontecer de qualquer jeito”. Significa viver a emoção com apoio suficiente para não se desorganizar.
Isso envolve:
presença atenta,
limites claros,
reconhecimento emocional,
e tempo para que a experiência se complete.
Quando a emoção é vivida dessa forma, ela deixa de ser apenas reação. Passa a ser experiência integrada. Algo muda no corpo, na relação e na forma como a criança passa a lidar com o que sente.
Regulação emocional se constrói no vínculo
A regulação emocional não nasce do controle imposto nem da liberação irrestrita. Ela se constrói no encontro.

A criança aprende a se regular porque, antes, alguém a ajudou a sustentar emoções difíceis. Aos poucos, aquilo que era vivido apenas como intensidade começa a ganhar contorno interno. A criança passa a reconhecer sinais, limites e possibilidades.
Esse é um processo relacional, gradual e profundamente humano.
Talvez a pergunta certa seja outra
Diante de uma emoção intensa, talvez a pergunta mais importante não seja:“a criança expressou?” Mas sim: essa emoção encontrou sustentação suficiente para se transformar?
Quando a resposta é sim, não estamos falando apenas de alívio momentâneo. Estamos falando de desenvolvimento emocional. Expressar é importante. Mas expressar sozinho não basta.
Na clínica infantil, e também nas relações cotidianas com crianças, o que transforma não é apenas permitir que a emoção apareça, mas estar presente para sustentá-la. É nesse encontro que a emoção deixa de ser descarga e se torna experiência.
E quando a emoção encontra sustentação, algo muda. Não de forma imediata ou espetacular. Mas de um jeito profundo, silencioso e duradouro.



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