Nem todo brincar é terapêutico: o que transforma uma brincadeira em terapia
- Carolina Bittencourt

- 29 de jan.
- 3 min de leitura
Nem todo brincar é terapêutico: o que transforma uma brincadeira em terapia
Na psicoterapia infantil, o brincar ocupa um lugar central. No entanto, existe uma confusão frequente, tanto entre pais quanto entre profissionais iniciantes, de que qualquer forma de brincar, por si só, já seria terapêutica. Essa ideia, apesar de bem-intencionada, empobrece o entendimento do que realmente promove mudança na clínica com crianças.
Brincar é fundamental para o desenvolvimento infantil. Mas brincar, sozinho, não é sinônimo de processo terapêutico.

Brincar não é o mesmo que experiência terapêutica
A diferença entre uma brincadeira comum e uma experiência clínica não está no brinquedo utilizado, nem na criatividade da atividade. Está na forma como a experiência é sustentada no campo relacional.
Na clínica infantil, o brincar se torna terapêutico quando:
acontece em um campo de segurança,
é sustentado por presença e atenção clínica,
possui limites claros,
e permite contato real com emoções, impulsos e significados.
Sem esses elementos, a brincadeira pode se reduzir a repetição, descarga motora ou estratégia de evitação emocional. A criança brinca, mas não se organiza.
O risco de romantizar o brincar na clínica infantil
Romantizar o brincar é supor que basta oferecer brinquedos e liberdade para que a criança “se resolva sozinha”. Essa lógica ignora algo essencial: a criança ainda está construindo recursos internos para lidar com o que sente.
Quando o brincar não é acompanhado clinicamente, ele pode:
reforçar padrões já cristalizados,
evitar emoções difíceis,
ou funcionar apenas como alívio momentâneo.
Na psicoterapia infantil, o objetivo não é ocupar o tempo da criança, mas oferecer experiências que ampliem suas possibilidades de contato consigo mesma e com o outro.

O papel da relação terapêutica no brincar
O que transforma o brincar em experiência clínica é a relação. É a presença do terapeuta que:
reconhece o que emerge,
delimita excessos,
sustenta frustrações,
e oferece continência emocional.
A criança não se organiza sozinha no brincar terapêutico. Ela se organiza na relação, a partir de um outro que está atento, disponível e implicado, sem invadir ou dirigir excessivamente o processo.
É nesse campo que o brincar deixa de ser apenas ação e passa a ser experiência vivida.
Brincar como experiência e não como técnica
Na clínica infantil, o brincar não deve ser tratado como técnica isolada. Ele é um meio de acesso à experiência emocional da criança, não um fim em si mesmo.
Quando o brincar é vivido com consciência relacional, a criança pode:
experimentar limites sem se desorganizar,
reconhecer emoções difíceis,
testar novas formas de agir,
e construir um senso mais integrado de si.
Essa experiência não acontece por acaso. Ela exige escuta clínica, leitura do campo e capacidade de sustentar o processo sem antecipar interpretações ou correções.

O que realmente importa na psicoterapia infantil
Mais importante do que perguntar “do que a criança brincou?” é perguntar: o que essa criança conseguiu viver enquanto brincava? Foi uma experiência de contato ou de fuga? De repetição ou de ampliação? De descarga ou de integração?
Essas perguntas deslocam o olhar do recurso para o processo, e é nesse deslocamento que a clínica infantil se aprofunda.
Nem todo brincar é terapêutico, mas toda experiência terapêutica com crianças passa, de alguma forma, pelo brincar. O que define seu potencial transformador não é a atividade em si, mas a qualidade da relação que a sustenta.
Na psicoterapia infantil, brincar é coisa séria. É campo de encontro, de organização emocional e de construção do self. Quando sustentado com presença, limite e atenção clínica, o brincar deixa de ser apenas brincadeira e se torna experiência.



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