Quando o comportamento da criança não é só da criança: o papel do psicólogo na parceria com a escola
- Carolina Bittencourt

- há 11 minutos
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Na rotina escolar, é comum que determinados comportamentos chamem atenção: agitação constante, dificuldades de adaptação, explosões emocionais, retraimento, conflitos repetidos. Muitas vezes, a pergunta que surge é direta: “Isso é um caso clínico?”
Nem tudo que incomoda é, necessariamente, um transtorno. Nem tudo que se repete indica um problema individual da criança.
Em muitos casos, o comportamento é menos um “sintoma isolado” e mais uma expressão do campo escolar: das relações, das exigências, das tensões...
O risco de olhar apenas para a criança
Quando a escola aciona o psicólogo apenas para avaliar ou encaminhar, corre-se o risco de reduzir a complexidade da situação. O foco se estreita: observa-se a criança, descreve-se o comportamento, busca-se um rótulo explicativo e, com isso, perde-se algo fundamental.
Comportamentos também organizam o ambiente. Eles sinalizam conflitos, sustentam equilíbrios frágeis, denunciam excessos ou ausências no cotidiano institucional.
Perguntas como:
O que esse comportamento está tentando resolver?
Que tipo de tensão ele revela?
O que a escola está sendo convocada a olhar a partir disso?
são tão importantes quanto qualquer hipótese diagnóstica.
Psicólogo na escola: avaliar ou pensar junto?
O trabalho do psicólogo clínico em parceria com a escola não se limita à avaliação individual. Seu papel central é produzir leitura, ajudar a nomear fenômenos, sustentar perguntas difíceis e construir direção ética.
Pensar junto não significa relativizar tudo ou evitar decisões. Pelo contrário. Significa:
diferenciar o que é demanda pedagógica, o que é institucional e o que é clínico;
evitar encaminhamentos precipitadamente medicalizantes;
oferecer à escola instrumentos de reflexão sobre sua própria prática.
Parceria não é concordância automática
Uma parceria sólida entre psicólogo e escola não se baseia em concordar sempre, nem em confirmar expectativas. Ela se constrói na possibilidade de sustentar limites éticos, mesmo quando isso gera desconforto.
Há momentos em que o psicólogo precisa dizer:
que nem toda dificuldade é caso de terapia;
que certos impasses exigem adaptações institucionais;
que a criança não pode ser o único lugar onde o problema é depositado.
Quando essa parceria é bem construída, a escola ganha algo precioso: capacidade de reflexão. E isso impacta diretamente o cuidado com as crianças, com os educadores e com o próprio ambiente escolar.
Pensar o comportamento infantil a partir do campo institucional amplia o olhar e evita soluções simplistas para situações complexas. É um trabalho que exige diálogo, tempo e responsabilidade compartilhada.




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