Mas só brincar de João Bobo é fazer terapia?
- Carolina Bittencourt

- 26 de jan.
- 2 min de leitura
Mas só brincar de João Bobo é fazer terapia?
Bem… depende!
Na psicoterapia gestáltica com crianças, o brincar não é um passatempo, nem uma estratégia para distrair ou “gastar energia”. Brincar é a forma privilegiada de a criança entrar em contato consigo mesma, com o outro e com o mundo. É linguagem, é ação, é corpo em relação.
Quando uma criança empurra, soca ou derruba um João-bobo em sessão, o que está em jogo não é o objeto em si, mas a experiência que se organiza naquele momento. O João-bobo oferece resistência, retorna ao lugar, não se machuca e não se afasta. Ele sustenta algo fundamental para muitas crianças: a possibilidade de expressar raiva, força e intensidade sem perder o vínculo.
Na clínica gestáltica, entendemos a agressividade como uma função vital do coontato, ou seja, é por meio dela que a criança se afirma, se diferencia e encontra limites no mundo. Quando essa função é bloqueada, a raiva não desaparece; ela se transforma em retraimento, ansiedade, sintomas no corpo ou explosões desorganizadas fora de contexto. O João-bobo cria um campo seguro para que essa energia apareça, ganhe forma e seja vivida de maneira integrada.
Mas aqui está o ponto central: não é qualquer brincadeira que vira terapia.
O que torna o uso do João-bobo terapêutico é a presença do terapeuta, a atenção ao processo e a sustentação da experiência no aqui-agora. Como a criança bate? Com força ou contida? Ri, se assusta, se organiza, se desorganiza? O corpo participa inteiro ou só parcialmente? O que acontece depois que a energia é expressa?
Não se trata de incentivar descarga automática nem de ensinar a criança a “extravasar”. Trata-se de acompanhar a experiência para que ela possa ser reconhecida, ampliada e integrada. É nesse acompanhamento que o brincar deixa de ser apenas brincar e se torna experiência transformadora.
Por isso, a resposta mais honesta para a pergunta “brincar de João-bobo é terapia?” é:
não necessariamente, não de qualquer jeito, mas pode ser, quando há intenção do terapeuta, presença e escuta do processo.
Na Gestalt-terapia, a mudança não acontece porque a criança entende algo, mas porque ela vive algo novo. E, às vezes, esse novo começa exatamente ali: no corpo que empurra, no objeto que retorna e na descoberta de que é possível sentir raiva sem se perder de si ou do outro.



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