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Mudar o comportamento significa que a terapia deu certo?

  • Foto do escritor: Carolina Bittencourt
    Carolina Bittencourt
  • 28 de jan.
  • 3 min de leitura

Mudar o comportamento significa que a terapia deu certo?


Uma das expectativas mais comuns quando pais procuram psicoterapia infantil é a mudança visível de comportamento. Espera-se que a criança fique mais calma, mais obediente, menos reativa, mais concentrada ou mais adaptada às regras do ambiente escolar e familiar. Mas... mudar o comportamento significa que a terapia deu certo?


Embora compreensível, essa expectativa revela um equívoco clínico importante: confundir resultado terapêutico com adequação comportamental. Na clínica gestáltica com crianças, a mudança de comportamento pode acontecer, mas ela não é, nem deve ser, o principal critério de sucesso terapêutico.


O comportamento como superfície do processo

Do ponto de vista da Gestalt-terapia, o comportamento não é causa, mas expressão. Ele emerge como figura a partir de um campo relacional específico e cumpre uma função de autorregulação possível naquele momento do desenvolvimento da criança.

Quando o foco terapêutico se restringe à modificação direta do comportamento, corre-se o risco de intervir apenas na superfície do fenômeno, sem tocar os processos que o sustentam: fragilidades no senso de self, dificuldades de contato, interrupções na autorregulação e experiências repetidas de não reconhecimento.


Como apontam Violet Oaklander e Luciana Aguiar, crianças não se organizam emocionalmente a partir de explicações ou correções, mas a partir de experiências vividas que fortalecem o self.


A armadilha da clínica adaptativa

Quando a psicoterapia infantil passa a ser avaliada exclusivamente pelo quanto a criança se adapta às expectativas do adulto, a clínica corre o risco de se transformar em um dispositivo de normatização.


Nesse modelo, o sucesso é medido por indicadores externos: menos queixas da escola, menos conflitos em casa, maior obediência. No entanto, uma criança pode apresentar melhora comportamental significativa e, ainda assim, permanecer fragilizada internamente, excessivamente ajustada ou desconectada de suas próprias necessidades.

A Gestalt-terapia se afasta dessa lógica ao compreender que adaptação sem integração produz ajustamento neurótico, não saúde.


O que, então, indica avanço terapêutico?

Se a mudança de comportamento não é o critério central, o que sinaliza que o processo terapêutico está acontecendo?

Na clínica infantil gestáltica, alguns indicadores fundamentais incluem:

  • Ampliação do senso de self e da autoimagem

  • Maior capacidade de nomear e expressar emoções

  • Brincar mais espontâneo e criativo

  • Redução de rigidez e aumento de flexibilidade no contato

  • Maior tolerância à frustração sem colapso emocional

  • Capacidade crescente de autorregulação


Esses movimentos nem sempre são imediatamente visíveis no cotidiano familiar, mas sustentam transformações mais consistentes e duradouras.


A mudança que emerge, e não a que é imposta

Oaklander enfatiza que mudanças genuínas acontecem quando a criança se sente vista, reconhecida e segura para experimentar novas formas de estar no mundo. Não se trata de ensinar comportamentos desejáveis, mas de criar condições para que a criança se reorganize a partir de dentro.


Quando o processo terapêutico respeita o ritmo da criança e sustenta um campo relacional seguro, o comportamento tende a se modificar como consequência, e não como objetivo imposto.


Essa distinção é ética. Forçar mudança comportamental pode gerar obediência, mas enfraquece o senso de autoria da criança sobre si mesma.


O papel dos pais no processo

Deslocar o foco do comportamento exige também um trabalho cuidadoso com os adultos responsáveis. Muitas vezes, o sofrimento parental está menos ligado ao comportamento em si e mais à frustração de expectativas, ao medo do julgamento social ou à dificuldade de sustentar limites emocionais.


Quando os pais compreendem que o processo terapêutico visa fortalecer a criança, e não moldá-la, o campo se torna mais favorável ao desenvolvimento.


Portanto, avaliar a psicoterapia infantil apenas pela mudança de comportamento é reduzir um processo complexo a um resultado imediato. Na clínica gestáltica, o sucesso não se mede pela obediência, mas pela capacidade da criança de se reconhecer, se expressar e se autorregular de forma mais integrada.


Quando isso acontece, o comportamento muda, mas como efeito de um processo vivo, e não como exigência externa.

 
 
 

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Psicóloga Carolina Bittencourt | CRP 05/64826 | Atendimento presencial na Barra da Tijuca e online em todo o Brasil

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