Por que as crianças não são forçadas a falar na terapia?
- Carolina Bittencourt

- 21 de jan.
- 2 min de leitura
Uma das dúvidas mais comuns de quem procura terapia para o filho é: “Mas se meu filho não fala na sessão, a terapia está funcionando?”. A resposta é sim, e não apesar disso, mas justamente por isso. Na terapia com crianças, falar não é o ponto de partida; muitas vezes, é uma consequência do processo. Mas, por que as crianças não são forçadas a falar na terapia?

Diferente dos adultos, as crianças ainda estão construindo recursos para nomear o que sentem. Elas vivem emoções intensas, experiências confusas e mudanças internas importantes, mas nem sempre têm palavras para isso. Por esse motivo, exigir que a criança fale pode ser invasivo. Não porque falar seja ruim, mas porque pode acontecer antes do tempo. Quando um adulto força a fala, a criança pode até responder, mas isso não significa que esteja se expressando; muitas vezes, ela está apenas tentando se adaptar à expectativa do outro.
Na clínica infantil, tudo comunica, não apenas a fala. No atendimento comigo, a criança pode brincar, desenhar, se movimentar, observar, ficar em silêncio, escolher, testar limites, se aproximar e se afastar. O brincar, o corpo, o ritmo e até o silêncio dizem muito sobre como essa criança está se sentindo e sobre o que ela consegue sustentar naquele momento. A terapia acontece enquanto a criança vive a experiência, e não quando ela precisa explicá-la.

Para que uma criança consiga falar sobre sentimentos, ela precisa, antes, se sentir segura. Segura no espaço, na relação e na possibilidade de existir sem ser pressionada. Quando a criança percebe que não precisa corresponder a expectativas nem responder do jeito “certo”, algo importante acontece: ela começa a se mostrar de forma espontânea. A fala, quando surge, vem mais verdadeira, mais conectada com o que a criança realmente sente.
Existe uma ideia comum de que, quanto mais a criança fala, melhor está indo a terapia, mas isso nem sempre é verdade. Forçar perguntas, insistir em explicações ou tentar “tirar algo da criança” pode gerar fechamento, resistência ou ansiedade. Em vez de ajudar, isso pode interromper o processo de organização interna. Na terapia infantil, não se trata de acelerar, mas de acompanhar.
A mudança acontece quando a criança vive uma experiência diferente daquela que costuma viver fora dali: um espaço onde não precisa se defender o tempo todo, onde não é corrigida a cada gesto e onde pode ser quem é, no ritmo que consegue. É nesse espaço que a criança vai, aos poucos, se organizando por dentro. E quando ela está pronta, a fala aparece naturalmente , não porque alguém pediu, mas porque agora ela pode.
Em resumo, a criança não é forçada a falar na terapia porque falar não é a única forma de expressão, porque segurança vem antes da palavra, porque o ritmo da criança é respeitado e porque a mudança acontece na experiência, não na explicação. A terapia não ensina a criança a falar sobre o que sente; ela cria condições para que a criança possa, um dia, se expressar com verdade. E isso faz toda a diferença.



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