Queria que meu filho fosse diferente.
- Carolina Bittencourt

- 22 de jan.
- 2 min de leitura
No consultório, muitos pais chegam dizendo que querem ajudar o filho a “melhorar”. Melhorar o comportamento, o rendimento escolar, as explosões emocionais, a dificuldade de lidar com frustrações. Até aqui, estamos falando de sofrimento real: da criança e da família.
Mas, em alguns casos, com o tempo, algo fica claro: o pedido não é exatamente que a criança sofra menos. O pedido real é: queria que meu filho fosse diferente.
Menos intensa. Menos sensível. Menos barulhenta .Menos questionadora. Mais previsível. Mais parecida com a criança que os adultos esperavam ter.
Quando a criança frustra as expectativas dos pais, surge um incômodo profundo. E esse incômodo, muitas vezes, é deslocado para o comportamento infantil: vira diagnóstico apressado, correção excessiva ou uma busca por intervenções que “ajustem” a criança ao ideal familiar. É importante dizer com clareza: psicoterapia infantil não é um espaço para moldar personalidades.
O trabalho clínico não tem como objetivo apagar traços, domesticar temperamentos ou encaixar crianças em modelos de funcionamento que não respeitam quem elas são. A função da terapia é reduzir o sofrimento, ampliar recursos emocionais e favorecer desenvolvimento, não produzir versões mais convenientes da criança para o adulto.
Existe uma diferença fundamental entre ajudar uma criança a se organizar melhor no mundo e tentar fazê-la caber em expectativas que não foram feitas para ela.
Em muitos processos, o ponto de virada não acontece quando a criança “melhora”, mas quando o adulto consegue sustentar uma verdade difícil: essa é a criança que eu tenho, não a que eu imaginei.
Isso não significa ausência de limites, permissividade ou abandono do cuidado. Pelo contrário. Significa sair da tentativa de correção constante e entrar numa relação mais real, onde a criança não precisa se defender o tempo todo de quem ela é.
Quando o adulto não suporta a diferença, a criança aprende cedo que precisa se esconder, se adaptar excessivamente ou se fragmentar para manter o vínculo. E isso, sim, produz sintomas: ansiedade, agressividade, retraimento, dificuldade de autorregulação.
A clínica não trabalha para aliviar o desconforto do adulto às custas da criança. Trabalha para que a criança possa existir com menos sofrimento e mais segurança, inclusive para lidar com frustrações, limites e responsabilidades.
A pergunta central, muitas vezes, não é “o que há de errado com essa criança?”, mas “o que está sendo difícil para os adultos suportarem nela?”. Quando esse deslocamento acontece, algo importante muda: a criança deixa de ser o problema a ser consertado e passa a ser um sujeito em desenvolvimento.
E é só a partir daí que qualquer mudança verdadeira pode acontecer, sem que a criança precise desaparecer para caber.



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